Saudade

Penso na saudade. Há muitos graus de saudade. E existem milhões de nós, e em toda parte, vivendo com saudade, os lugares de presença dentro de nós, e a passagem dos anos é a prova deles.

É um alívio, no entanto, escutar nossas memórias, os detalhes das pessoas que amamos, e que, em razão dessas lembranças, continuam conosco, não precisam desaparecer.

Porém devo acrescentar que apenas depois de muito tempo não é aterrorizante ou doloroso demais falar sobre a perda ou a ausência. Porque o som de suas vozes, nas voltas inumeráveis que fazem os caminhos, no início machuca muito. Quantas vezes, sem razão, meio dia de domingo, choramos ao comer, a comida comum mais deliciosa que dividíamos, a mão sobre a mesa e, se formos honestos, os traços parecidos e as claras diferenças, as brincadeiras da infância que permitiram a construção de um laço como uma coisa viva…

Conhece a história do meu irmão e seu desejo de pilotar avião? – pergunto à minha filha, no dia em que nos sentamos para olhar juntas fotografias antigas. Ela olhou e ouviu tudo e depois correu em direção à varanda e me trouxe, em silêncio, uma florzinha branca, os braços dela me apertando…  Continuei em voz baixa: ele trabalhava com seu avô e, em novembro, morreu antes de completar 38 anos.

Era quase duas horas quando consegui dormir. Antes me lembrei dele e nós dois de mãos dadas na escola primária. O cheiro das árvores, o balanço, a vida como um brinquedo.

Daí que eu e meu irmão crescemos.  Penso nele como um “viageiro”. Alguém que gostava de viajar e que cultivava a boa meta de melhor conhecer o mundo em que vivemos… De outra parte, mesmo sem ter alcançado seus objetivos, me conforta saber que ele havia entendido que são as expressões do nosso ego, como o medo, a inquietação, o desejo de sucesso, a comparação,  que perturbam a fluidez da vida e por isso não se deve forçar as coisas, mas acompanhá-las.

Hoje, pensando no Zé, reacendeu a fragrância da saudade: éramos, eu e meus irmãos, crianças na casa da rua da torre de uma cidadezinha e, na fazenda, cavalos e arroio, nossos pés enrijecidos pela geada. Era muito cedo para o calor do sol. Agora, o vento da madrugada, ele veio bater à minha porta? Tanto tempo que a gente não se vê, meu irmão!

Aprendemos pela experiência da vida, pelo treinamento do corpo e do espírito. E ainda que seja impossível apagar nossas histórias, não quero me fixar em um estado de melancolia. Porque a vida também é despedida. Quem negaria? Ela chega de súbito ou ela chega de mansinho. Aliás, vida e morte não são inimigas. São companheiras. Chegada e despedida…

Recebemos o dom da vida e temos que diariamente viver, fazer escolhas, vibrar com nosso ser profundo. De outra parte, a vida é curta, mesmo… Abro a janela, deixo a atenção se exercitar sem esforço, absorvo o movimento da rua, e sem procurar julgar as coisas, e do que sei? O tempo passa e passamos com ele. Assim, em 2010, meu irmão morreu de repente, morreu em pleno voo…
Cariños, Eugênia Pickina

Para sempre é muito tempo. O tempo não para! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo. Mario Quintana
Imagem: Drew Tilk/Unsplash