A natureza e o significado das coisas

Nestes dias, tão quentes, ando pensando muito sobre o significado das coisas e a exuberância da vida da qual somos parte. A cor das folhas, o hálito da terra úmida, o canto dos pássaros, o vento, a caminhada reparando o jardim, as árvores e seus galhos. O cotidiano da natureza.

E se o normal na pandemia é não estar normal, a natureza mais do que nunca é remédio e inspiração em tempo de incerteza, de impaciência, bosques e áreas verdes que nos animam, ajudando-nos a entender que, apesar dos desafios, a vida vale a pena ser vivida.

Prestemos atenção nos jardineiros. Eles, como os poetas, são capazes de ver o essencial e, através de sua rotina de cuidados, atendem o que faz o coração sorrir e o corpo se encher de paz: um jardim, um canteiro de flores miúdas, uma paineira na pracinha e, sobre ela, um céu sem nuvens.

Conheci a Elena, uma tradutora de italiano. Estava doente, muito doente. Na véspera de sua morte, pediu para contemplar o amável jardim. O silencioso pinheiro, as rosas amarelas. Cheirou o jasmim. E parou encantada com a fragrância dada de graça. “O perfume… Sempre que o sinto penso em Deus. Acho que Deus é assim…”

A despedida no jardim. Os olhos enxergam o simples, e que tem a qualidade de dar alívio nas horas difíceis.

Pensei na minha avó. Nos pessegueiros em floração. O calor morno do meio dia. Os olhos dela que indagavam o horizonte, a voz paciente me contando que a vida às vezes aperta porque quer nos ensinar a prestar atenção no que é relevante. “Por isso não esqueça de ver o pôr-do-sol. É tão bonito.”

Quando mais vivo menos posso conceber o mundo empobrecido de árvores e raízes, pássaros, abelhas, borboletas, regatos cristalinos. Essas coisas são imprescindíveis à nossa sanidade, à nossa qualidade de ser, às nossas moradias – na cidade ou no campo, onde o vento às vezes sopra canções pondo em movimento sementes e sonhos.

Lá no alto. Aqui embaixo. O amargor da vida insiste nas flores ao lado do caminho. Que aprendamos o cotidiano online, não há outro jeito. Mas ainda assim, para quem considera o planeta um lar, impossível não pensar a importância das árvores ou da grama sob os nossos pés.

O significativo é entender então que as coisas vivas não vivem apenas para nós. Elas vivem para si mesmas e ainda assim nos servem com seus dons, seus predicados, livrando-nos das distrações ou de um mundo sem cor, desgastado pela falta de sentido.

A natureza, os espaços verdes, são, sem dúvida, essenciais à nossa época,  animando nossa saúde, nossa convivência. No dia a dia, e atentos, sejamos como os jardineiros. Cuidemos para que o mundo, do qual somos parte, seja exuberante de vida, de esperança e de inspiração.
Cariños, Eugenia Pickina

Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos,
limitados a chorar? Cecília Meireles
Imagem: Alex Blajan/Unsplash