A natureza e o essencial

Manoel de Barros, poeta das miudezas, sabia o que era essencial. No seu mundo, insetos valem mais do que aviões e a alegria diz respeito a águas, árvores, aves, aos seres desimportantes.

Somos partes da Natureza. Água, terra, fogo e ar. Os elementos clássicos, segundo o grego Empédocles. Por isso é sem sentido imaginar um mundo sem chuva, sem rio cristalino, a força do mar misterioso…  Terra e sementes, a necessidade humana de cultivar um jardim, uma rosa vermelha, maçãs e rabanetes para o jantar… Não posso, e por motivos singelos, conceber um mundo sem o calor do sol tão crucial aos viventes, a presença do fogo que assa o pinhão no inverno… Não posso imaginar um mundo sem a razão de ser do vento, passarinhos no céu, cheiro de jasmim que nos alcança na janela e no entardecer.

O essencial, de dia ou de noite, é aquilo que se nos fosse tirado, morreríamos. Extrato do nosso corpo e da nossa alma. Por isso as pessoas aspiram ao simples e à natureza: no silêncio de um jardim desfrutamos de um encontro com o essencial. A presença do belo e da harmonia, um sentimento tranquilo, que nos toma e nos reorienta, contemplação que nos ajuda a estar concentrados e em boa saúde.

O nome do livro eu nem me lembro. Sei que se passava em Bruges, uma cidade medieval da Bélgica. Os protagonistas eram a avó e um menino. O avô havia morrido. O filho deixava o neto passar as férias de verão com a avó triste e solitária. Onde eles ficavam a maior parte do tempo? Em um jardim. A avó e o menino. Ambos banhados pela luz, o menino brincando livre em contato com a natureza; e, no fim do dia, a contação de histórias era feita sob o fulgor do crepúsculo, o cheiro das rosas, um verdadeiro ritual. Mais tarde a casa da avó foi vendida. Ela perdeu o jardim. Foi morar em um modesto apartamento em Bruxelas. Não conseguiu reinventar uma vida sem suas árvores e suas flores. Perdida e sem rumo. Logo morreu, carente do essencial: água, terra, fogo e ar.

Observo, pelo mundo inteiro, mais e mais pessoas  perceberem o essencial. Elas reconhecem uma coisa claramente: “Este mundo  precisa ser preservado”.

Manoel de Barros, munido de uma poética da singeleza, avisou: “Eu penso renovar o homem usando borboletas.” Não há outro caminho…

Cariños, Eugenia Pickina

Imagem: M. Turle (Unsplash)