Licença de saudade

Nesta noite, eram três horas e acordei. Acordei pensando nos últimos dias da minha mãe. Ela que morreu nova, sem ser velha ainda. E me fiei em Riobaldo, pensando solitária:

Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma!

Porque existe saudade.

Tenho licença, então, para sentir falta. Falta da voz da minha mãe me ligando aos domingos e perguntado se eu estava bem, vivendo certinho… Arriscando meu sonho ou mudando de rumo e com coragem. Tenho licença para sentir, às vezes, que a vida é sonho, especialmente quando a fisgada da dor afunda o peito, fazendo surgir, por isso, a urgência de socorro do céu e dos poetas.

Pego-me fazendo uma prece para Miguel, o arcanjo, e depois para São Jorge, rogando escudo e esperança. Recito um mantra budista, que me conforta e dá fortaleza. Então me levanto, corro até a estante para reler aquele poema de Pessoa, que sempre me consola nas horas de falta: “A morte é a curva da estrada, Morrer é só não ser visto.”

Qual é o filho que ama? O que se resigna porque a mãe não vai voltar ou o que não se conforma porque a mãe morreu? E em ambos o mesmo espinho: a dor chamada saudade, bem definida pela Adélia Prado: “Eh saudade! De quê, meu Deus? Não sei mais…”

Acredito em Deus e sei que a luz do Sol vale mais que minha tristeza e estatura. E mesmo assim sinto falta da minha mãe, ainda que consolada pelo apoio presente do mundo espiritual.

Então saiba, mãe: não me esqueci de nada, e guardo sua voz dentro de mim, a utilidade da coragem e das rosas para quem continua vivendo aqui ao ritmo das tristezas e das alegrias.

Hoje sei que há muitos jeitos de voar. De largar o ninho e fazer o próprio ninho. Sei também, e só agora, que é possível viver apesar de nossas feridas e cicatrizes.

Como uma protestante que sempre fui, e desde meninazinha, da sua linhagem eu herdei, felizmente, o fato de que é preciso lançar-se na vida a despeito do medo. Ter coragem para mudar. Quantas vezes? Igual perdoar, quantas forem necessárias.

Dona Adelaide, minha mãe, Deus a tenha em sua guarda!
Cariños, Eugenia Pickina

Notinhas
No texto, aludo ao livro Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa (ao transcrever a fala de Riobaldo); à poesia ortônima de Fernando Pessoa: “A morte é a curva da estrada.” Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de J. G. Simões e Luiz de Montalvor). Lisboa: Ática, 1942, p. 142; e à poesia de Adélia Prado – Poesia Reunida. SP: Siciliano, 2001, p.63.
*Foto: Inderpreet Sekhon (Unsplash)