O tempo de uma paixão

Quando conheci a Marcela, ela tinha trinta e dois anos e namorava (às escondidas) um homem chamado Murade, encarregado de supervisionar os empregados na empresa de engenharia que ela gerenciava. À tarde, normalmente, os dois andavam juntos pelos canteiros de obras, às vezes, para tomar distância, paravam para comer na estrada em direção a Curitiba, o sol fervendo as gazânias que cresciam nas pedras amontoadas na cerca, e a menor brisa levava à varanda do restaurante o odor do veneno aplicado na soja, mas assim mesmo eles comiam e enchiam as taças de um vinho doce servido em uma jarra de vidro azul. O mês de abril terminara, maio estava seco, sem perspectiva de chuva, um mês sem esperança. Marcela se dava conta que só havia um lugar onde poderia viver livremente sua história com Murade, e esse lugar não era o Brasil nem a Turquia, e, por isso, sentiu-se profundamente triste, assistindo à iminência do fracasso. O orgulho de Murade nunca se curvaria à condição de ganhar menos do que uma mulher. E era esse orgulho que minava a ilusão de viverem juntos como um casal.

“Eu nunca poderei comprar um apartamento. Piscina, sacada, ar-condicionado nos quartos. Mas também não conseguiria viver nele, não mesmo.”

Marcela compreendia. Afastou a cadeira. Tentou explicar que preferia uma casa simples a condomínio de apartamentos. Ele deu de ombros. É ilusão acreditar que somos capazes de grandes mudanças e sacrifícios. E essa vergonha que ele sentia afetava seu humor e fragilizava o laço que os unia. Uma semana depois, Marcela pediu demissão e voltou para São Paulo. Arrumou as malas sem contar nada a Murade. Tinha que ser assim. Não ligou nem deixou carta escrita. Telefonou para a mãe, e para contar que estaria em São logo logo mais no anoitecer. Viu nuvens baixas pela escotilha e, quando notou o mar de prédios, assoou o nariz. A mãe preparava o jantar.

“Tudo bem, Marcela? Está com cara triste.”

Marcela respondeu que tudo estava bem, deu um abraço na mãe e foi se deitar no quarto de sua infância, os livros de aventura olhando-a de cima, o vento batendo na janela. Às seis horas da manhã, a campainha do celular arrancou-a de um sonho em que uma grande árvore secava pela ação de um vento bizarro, ela sabia que precisava arrumar um abrigo, mas não tinha forças. Atendeu o telefone e ouviu uma respiração ofegante e, então, a voz de Murade:
“Marcela! Marcela!”

Ele repetia o nome da ex-namorada. Marcela desligou o telefone, e se pôs a chorar. “O que é bom para mim?”, Marcela se pergunta, sentindo-se exaurida.

Marcela e eu estamos sentadas diante das árvores à beira do lago, em um Parque em São Paulo. Em dez anos, ela nunca mais voltou para Porto Alegre. De Murade, só resta uma foto, tirada durante o outono de 2009, um homem em roupa de operário e um mundo que não existe mais.

Marcela segura a minha mão. De tanto em tanto, me conta dos pais, do trabalho na faculdade de engenharia, não querendo falar da ferida e sua luz intensa que a faz encenar, todo dia, a mesma história de redenção.

Minha amiga me abraça e me chama de querida. Chora e os olhos ficam vermelhos. E me diz que as vidas passam, uma depois da outra, e talvez isso não signifique nada. De um modo particular, considero essa hipótese intolerável e, por isso, replico de modo veemente dizendo que não é porque não vemos algo que podemos dizer que não existe. Enfatizo que acho um consolo contar com a proteção sempre presente do mundo espiritual.

Levantamos e nos despedimos. Embora Marcela não aceite parte dos meus argumentos, me dá esperança seu sorriso franco, o esforço honesto para se comprometer com a atitude de seguir em frente. E atenção com a vida. Atenção para não se distrair, nem sucumbir a uma paixão triste.
Cariños, Eugênia Pickina

Definir é limitar. Oscar Wilde

Notinha
Não podemos pensar o mundo, ou as histórias das pessoas, senão a partir de nós mesmos e das contingências de nossas vidas. Por isso é inadequado querer apontar “soluções”, “caminhos”, porque só podemos transmitir convicções pessoais, colhidas na esteira da própria experiência. Em relação aos trechos difíceis de nossas vidas, acredito que podemos a todo custo recusar a nos fechar, evitando ruminar o passado ou as preocupações, procurando de uma maneira insistente e cotidiana nos alegrar com os prazeres simples da vida. De outro lado, quando estamos imersos em relacionamentos complicados, que nos causam infelicidade, ou atravessando qualquer  situação que gere temor, desequilíbrios, pedir ajuda às vezes é essencial para superar/alcançar de novo a fluidez da vida.