Abelhas e o vir-a-ser

Quando eu era menina, os jardins eram o lugar da minha grande felicidade. Dentro de casa, restrição e obediência. Eu corria para o jardim. As árvores eram companheiras leais de brincadeiras e, na ocasião das flores, uma festa: apareciam as abelhas, operárias-bailarinas.

Comecei a admirar as abelhas antes mesmo de saber sobre a importância da polinização para a manutenção da vida no planeta. No jardim da minha casa, brincando e abordando a vida com confiança, me sentia tão feliz. Vejo-me de joelhos, pés descalços, frente a um canteiro de cravos. Eu e as flores escutando o zunido das abelhas: zum-zum-zum. Não sei que idade tinha, só sei que amava estar ali.

Passava horas a observar a dança das abelhas e nunca me cansava de as ver. Quando elas apareciam, pensando em agradá-las, punha-me a recitar uns versos que me encantavam desde o dia que os conheci, e que rimam assim:

Num zune que zune
Lá vão pro jardim
Brincar com a cravina
Valsar com o jasmim
Da rosa pro cravo
Do cravo pra rosa
Da rosa pro favo
E de volta pra rosa

Cantava-os “de cor”: de coração

Mia Couto, o escritor moçambicano, avisa-nos que “a vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado.”

A favor de toda a vida e da felicidade, é possível a gente se empenhar nessa ação cotidiana contra os acontecimentos injustos, áridos e embrutecedores. E isso ecoa, na realidade, como uma convite contra a paciência do conformismo, os males da razão e também uma vigilância (atenta) de nossos hábitos e escolhas.

Mas onde está a esperança? Nas abelhas.
Cariños, Eugênia Pickina

Notinha
20 de maio – Dia Mundial das Abelhas
No texto, menciono parte do poema As abelhas, de Vinícius de Moraes.