Simplesmente se deixe levar

Na minha rua um homem limpa o telhado de um casa recém-alugada. O velho cão da vizinha late, intrigado com o desconhecido. São sete horas da manhã e a semana começa sem pressa, e, eu, no íntimo, aspirando achar uma ilha verde para me munir de esperança mesmo que não possa firmar meus pés ali.
Levo minha caneca azul para a varanda. Procuro beber o café absorvendo o ar fresco da manhã. Abro o jornal e leio um cidadão discorrendo sobre solidariedade e cooperação em tempos de coronavírus – e não tenho dúvida de que incluir nas nossas vidas o verdadeiro sentido da cooperação em detrimento dos nossos interesses individuais está mais do que nunca ao alcance de todos. E fico torcendo para que este aprendizado coletivo se integre ao mundo pós-pandemia.
Um jardineiro aparece na rua e começa a cortar a grama de uma escola de ensino infantil erguida na esquina. De súbito me vem à mente as crianças que habitam os livros infantojuvenis. A saga da destemida menina Alice no País das Maravilhas. Como esquecer personagens como o Chapeleiro ou o Coelho Branco? Uma outra criança corajosa – a história do menino Peter e sua ligação profunda com a raposa Pax – a leitura toca sensivelmente o coração, pois narra sobre amor e lealdade, medos e solidão.
Creio que neste período de confinamento é tão importante cuidar do corpo, quanto cuidar da mente. Ouvir música, manter bons pensamentos, ler livros que agucem nossos sentidos e fortaleçam a alegria de viver. Porque a ciência já provou que fazer-se conscientemente apartado de estados pessimistas favorece a saúde, o bom humor, diminuindo, no mínimo, a irritação que nos domina às vezes por conta do isolamento forçado.
O céu está cheio de nuvens e poderá chover mais tarde. Entro no “Dia de chuva” de Mario Quintana, um dos meus poeminhas preferidos: “Dia de chuva/é para a gente rasgar cartas antigas…/folhear lentamente um livro de poemas…/não escrever nenhum…” Sim, uma sugestão para este dia confinado: escrever uma carta para alguém, anotando, já no cabeçalho, nossas palavras amáveis preferidas.
E, por hoje, certamente será benéfico deixar de lado as aspirações impossíveis, contentando-nos com a vista à nossa frente para aceitar o dia como ele se apresenta. Não se angustiar, pois lá na frente pende o futuro e por enquanto só nos cabe viver aqui e agora, dando o melhor de nós.
Amor e ânimo, Eugênia Pickina

Notinha
No texto cito dois livros do universo infantojuvenil: Aventuras de Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll; Pax, de Sara Pennypacker, ed. Intrínseca.