Ikigai, razão de ser e de viver

Fazia menos de um ano que meu amigo de infância largara o trabalho numa revista de notícias porque não aguentava mais. Mudou de cidade, alugou uma casa e optou inicialmente pela solidão, e para decidir como prosseguir com a vida.
Tinha alugado uma casa no limite da cidade. O quintal dava para o fundo de um vale, a sonoridade tranquila de um riozinho. Ele adorava aquilo. A casa era pequena, fria e cheirava a madeira velha. Do lado de fora, meu amigo estava acumulando lixo orgânico – e não sabia ainda se queria começar um jardim ou fazer uma horta. Maçãs comidas, cascas, sobras e pó de café eram levados até a margem do muro baixo, as folhas do Jacarandá tinham amarelado, a grama parecia bastante alta.
A vida dele era bem diferente do que tinha sido há alguns meses. Tirou as botas, ficou descalço. À tarde, iria aventurar-se em caminhadas pela cidade, e também para refletir possibilidades para um novo trabalho.

Nos dias caóticos, a solidão ajuda a clarear o caminho

De início, o isolamento o ajudara a pôr as ideias em ordem, a entender que às vezes passamos por situações difíceis e, por isso, simplesmente não conseguimos fazer nenhum progresso. Sentir raiva, sentir medo, tudo isso faz parte, até mesmo uma sensação de tristeza peculiar.
No telefone, sua mãe falou: “você pode colocar um anúncio no jornal da cidade. Em cidades pequenas, essas coisas ainda funcionam.”
À tarde, trancou a casa e saiu para caminhar enquanto tinha sol. Ali estava um mundo que não lhe era familiar, de ruas estreitas, casas com cortinas em todas as janelas. Estava quente, uma mulher cantando enquanto varria a calçada. Ele não reconheceu a música.

Alinhar-se à própria essência exige, muitas vezes, um espírito de ousadia

Havia mais do que casas, diversos edifícios baixos. Virou a esquina e parou para ver a hora no relógio de pulso. No momento, um homem alto e magro estava colocando no portão largo a placa de “Precisa-se de jardineiro”.
Sem refletir muito, ele se adiantou e acenou para o homem dizendo: “Eu me ofereço para a vaga”.
O sr. Marquizan, proprietário da casa e de um maravilhoso jardim, olhou vagamente para ele.
“O senhor tem experiência?”
“Sou autodidata, não tenho muita experiência, mas prometo me dedicar com afinco.”
Acertaram o trabalho e ele agradeceu ao sr. Marquizan respeitosamente. Anos atrás lera um pouco sobre o Ikigai e, depois que tomara a decisão de largar o emprego de jornalista para reinventar a própria vida, entendera que a possibilidade de trabalhar no jardim daria a ele um motivo forte para acordar feliz e animado todos os dias.
“Bom, foi difícil no começo”, ele me contou quando nos falamos a última vez pelo WhatsApp, “mas o sr. Marquizan deu várias provas de paciência generosa. Acho que ele percebeu que todos os dias eu pegava o jardim com bastante entusiasmo, dando crédito à oportunidade.”

Quando encontramos nosso Ikigai, aumentamos nossa potência de ser

Tomemos esse exemplo concreto para nossas vidas. Quando encontramos nosso “Ikigai”, de uma forma mais natural e criativa, conseguimos galvanizar as forças da vida: amor, confiança, paciência, persistência, coragem, compaixão, os pensamentos e as emoções positivas, aumentando nossa potência de ser, nossa alegria de viver, apesar dos desafios cotidianos.
Sim. Sim. Ikigai. E você? Sabe qual é o seu?
Cariños, Eugênia Pickina

Notinha
Não existe uma tradução direta para o termo “Ikigai”. O mais próximo que se pode chegar é a descrição feita por Ken Mogi, um neurocientista japonês e autor do livro “Ikigai: Os cinco passos para encontrar seu propósito de vida e ser mais feliz” (Editora Astral Cultural, 2018): “Ikigai é a sua razão de viver. É o motivo que faz você acordar todos os dias.”