Às mulheres

Ela me devolveu o livro da Munro e disse: “São histórias difíceis. Mas ainda hoje não é fácil ser mulher.”
Alice Munro escreve muito sobre mulheres. Situa seus contos em cidadezinhas pacatas, narrando  sobre vidas ordinárias, dias e noites sem novidades: casar, cozinhar, criar filhos, comprar vestidos, sonhar mudar de vida, querer fugir da violência, pequenas alegrias, felicidade demais e de menos.

Mulheres que sonham, mulheres que esperam, mulheres que lutam…

Conforme lemos suas histórias nos deparamos com uma esposa aborrecida, uma jovem mãe em visita à casa de sua infância, mulheres que fazem sopa grossa, mulheres que sonham, mulheres que amam, esperam, lutam, partem, algumas que se resignam “e porque têm uma vida difícil, e com dois pequeninos”, esclarece, no livro, a sra. Travers.

Mulheres determinadas e fortes

Tive a sorte de pertencer a uma família de mulheres determinadas e fortes – minha mãe, minhas tias, minha avó, que conheceu o marido em Irati, pertinho de Curitiba, e viveu com ele até o fim em uma fazenda no interior do Paraná – e  sem fazer encenação.
Quando alguém contava à minha avó um episódio que envolvia algum tipo de sofrimento feminino, mesmo sem grande competência, ela dava um jeito de ajudar, convocando também a disposição do marido,  muitas vezes oferecendo a sua própria casa a fim de salvaguardar a fulana de tal que passava por uma situação difícil.

Mulheres que ajudam

Cresci ouvindo sobre a história da cunhada mais nova da minha avó, que ficou grávida com dezesseis anos e foi expulsa de casa pela voz do pai.  Minha avó não teve dúvida. Fez meu avô trazer a irmã para dentro da casa deles e lhe deu assistência na gravidez e no parto,  garantindo um lar para ambos, mãe e criança, enquanto fosse necessário. Essa moça se casou mais tarde com um gaúcho amigo do meu avô e foram viver como uma família feliz em Porto Alegre.
Toda vez que minha avó relatava essa história, finalizava repetindo: “Quando passamos por uma situação desastrosa precisamos ser firmes e corajosos.”

Os recomeços são normais em todas as fases da vida

Certa vez eu contestei minha avó, pensando na situação de uma amiga adolescente que tinha engravidado e que me afirmara chorando que se sentia como se a porta de sua vida tivesse fechado para sempre.
“Pois lhe digo que a vida dessa moça não acabou. Mal começou. E os recomeços são muito normais e em todas as fases de nossa vida.”
De alguma forma, animada por essa pedagogia positiva, me senti encorajada para ajudar minha amiga de escola a cuidar de si mesma e não desistir, confiando que novas possibilidades se abririam. Ela acabou sofrendo um aborto espontâneo, terminou o relacionamento e até hoje não quis se casar, nem ter filhos. Ela vive em uma cidadezinha em Santa Catarina e, entre outras atividades, é voluntária de um programa que ajuda mulheres a romper ciclos de violência.

08 de Março de 2020

08 de março de 2020. Agora vem o outono, bem na hora que estamos cansados dos excessos do verão. Fortes chuvas interrompendo estradas, epidemia de dengue na cidade e coronavírus fechando o mundo. Tomei o café na varanda. Lembrei da minha avó, da minha mãe, da Rosa, mulheres que amei muito, que fazem falta, sobretudo quando estou na cozinha ou fotografando árvores e flores; mulheres que me ensinaram a viver tocada pela saudade e ainda sem eu ser velha.
Aos solavancos, veio à mente as mulheres difíceis que cruzaram a minha vida,  as coisas rudes que escrevi nos meus diários em razão das crueldades que sofri por conta delas, obrigada que fui a entender que não agradamos todo mundo e que há pessoas que de um modo bizarro estão habituadas a confundir afeto com controle, cordialidade com indiferença.

Mulheres que são capazes de amizade e esperança

Pensei nas minha amigas, tão caras e preciosas.
Abriu-se no peito, e feito uma rosa, a forte presença dos anjos do caminho – as mulheres que se ajudam mutuamente, que nutrem o espírito cooperativo, que são capazes de amizade e de esperança. Sim. Sim.

Parabéns às mulheres.

Cariños, Eugênia Pickina

Notinha. O livro de Alice Munro a que me refiro no texto é: Fugitiva, tradução de Pedro Sette-Câmara, SP: Globo [Biblioteca Azul], 2014.