Vida e morte

Era de manhã. Cedinho. Minha filha me chamou no quarto. Ela tinha cinco anos. Fez-me então uma pergunta que eu não esperava: “Mãe, quando você morrer, você vai me esquecer?” Fiquei emudecida. Não sabia o que dizer. Ela veio em meu socorro. “Não chore, mãe, porque eu nunca vou te esquecer.” Ela, uma meninazinha de cinco anos, sabia que morremos apenas quando somos esquecidos.
Meu avô era um homem de 81 anos. Vivia com saudade da esposa, que perdera de infarto. Um dia acordou radiante, uma alegria indisfarçável, e anunciou na cozinha, assim que apareceu para fazer o desjejum: “Minha hora está chegando. Esta noite sonhei com a Eugênia dizendo que está vindo me buscar.” Naquele tarde teve um AVC e, no mesmo dia, no hospital, entrou em coma, vindo a falecer no dia seguinte. Fez a viagem guiado pela amada.
Já tive medo de morrer. Hoje está mais resolvido. O que me preocupa às vezes é o morrer vir acompanhado de dores, aparelhos, humilhações, solidão, as máquinas obstruindo meu desejo honesto de morrer perto das minhas árvores, das minhas flores, e em meio às pessoas que amo, meus animais queridos e na quietude da natureza.
Mas antes de morrer precisamos viver.
Sim, quão cara é a vida. É preciso viver, dar conta das tarefas, das pendências, dar vazão às qualidades e, no meu caso, criar minha caçula, pois ainda é criança, desfrutar da companhia do marido, da família, dos amigos… No dia a dia, cultivar meu jardim, servindo aos anseios que movem meu coração….
Sem esquecer que cada um é importante, quero viver e permanecer humana o bastante para contribuir com a esperança da beleza, da compaixão, da alegria, da harmonia com as leis da natureza. Afinal, Francisco de Assis já avisou que morte e vida são irmãs. E certamente, por conta disso, o amor e o respeito pela vida são essenciais para que a morte nos alcance de modo sereno ou que, ao menos, em vez do medo, nos sintamos tranquilamente encorajados na hora de partir, pois para tudo há o seu tempo.
Cariños, Eugênia Pickina