O contágio do silêncio

Tenho uma amiga muito querida na Espanha. Nascida em Madrid, vive desde 2014 em Oviedo, capital das Astúrias. Há alguns anos fizemos um acordo: uma vez por semana nos escrevemos um e-mail dividindo nossos cotidianos, relatando sobre as novidades ou comentando sobre os desafios que ameaçam nossa paz, ânimo, coragem. Por isso, muitas vezes, essa narrativa semanal pareça menos uma “carta” e mais um “encaminhamento”, o mais vivaz possível, pontuado de perguntas, de dúvidas, no qual nos debruçamos de acordo com nosso modo de ser sobre a prática da vida…
Faz um mês que não escrevo para minha amiga. Não por desinteresse ou hesitação, mas talvez porque ultimamente não me sinto alegre o suficiente para escrever a ela de modo sensível e profundo, agindo como aquela criança que pode ser extraordinariamente feliz com um único brinquedo porque sabe desenvolver sua imaginação e sua criatividade…
Claro que Isabel reclamou do meu silêncio. Ontem me escreveu um longo email, contando sobre a nocividade da confusão entre “necessidades” e “comodidades” em época de mudanças climáticas, e levantando a seguinte questão: “quais são as coisas que lhe parecem mais importantes para ser feliz?” Não sei o que a maioria responderia, contudo creio que saúde, família, amizade, trabalho e espiritualidade surgiriam como alguns dos pilares da felicidade. Ainda que, obviamente, a martelação publicitária e o espetáculo revelado diariamente nas redes sociais acabem por estimular apetites materiais ou o desejo de posse. Afinal, quem de nós conseguira hoje viver sem carro, sem televisão, sem celular? Isso parece impensável à imensa maioria dos que já adquiriram tais objetos.
Mas houve uma parte no e-mail da Isabel que me chamou a atenção. Professora do ensino infantil, ela sempre conta sobre temas ligados à infância e educação – aspectos que comungamos de modo estreito. Mas, dessa vez, ao comentar sobre a onipresença em casa da televisão, do computador, do videogame, que tira da criança a possibilidade de dar livre curso à imaginação, pensei em nós, adultos, e nossa falta de tempo para a interioridade, pois somos incessantemente bombardeados por urgências, estímulos e demandas exteriores…
Entendi então por que não havia escrito mais à minha amiga espanhola. Adultos, somos tão solicitados pelo exterior, pelas tarefas a realizar que acabamos saturados ou ressecado. Por conta disso, minha urgência em me pôr a distância para reencontrar meu impulso vital.
Até o fim de semana certamente escreverei à Isabel, contando a ela sobre o papel essencial do silêncio, da inatividade e da contemplação da natureza para fortalecer nossa vida e libertar a alegria escondida no coração de cada um de nós…
Notas de viagem, Eugênia Pickina

Notinhas
Silêncio, inatividade e contemplação da natureza são, sem dúvida, triunfos preciosos para nos ajudar a manter criatividade, paz profunda e felicidade.
Não podemos perder de vista que é essencial demonstrar no dia a dia o que estamos sentindo para aliviar a pressão de nossos relacionamentos, escutando também o que os outros têm a dizer – e para buscar entender seus sentimentos com empatia, ou seja, não se deixar levar apenas pelas palavras…