Sobre o desamor

A vida da Rita é um inferno de brigas. A razão lhe diz: “o melhor é a separação”. No entanto, temerosa (e inundada por culpa), insiste em iludir-se com a ideia de que hora ou outra a paz invadirá seu futuro…
Na cafeteria, Rita começa a abrir caixas e mais caixas e a fechá-las em seguida. Fala com o jeito distraído, a complacência que lembra certos personagens femininos daqueles romances adocicados que abominam ver gente discutindo. Seu único irmão, e  mais velho, começa a lhe dizer de um modo objetivo e honesto: “Rita, no relacionamento, respeito não é luxo, é necessidade.”
Mas Rita ignora o irmão, repetindo “com certeza, com certeza”, e começa a contar a história de algum cliente do ramo cafeeiro que tinha se metido em grande dificuldades por causa da cobiça do sogro. Eles o conheciam de anos. Depois, virou-se e chamou a garçonete querendo um café de prensa. A fim de manter-se ali, o irmão entendeu melhor manter-se indiferente e, por isso, reconfortante.
Rita está de casamento marcado. 25 de maio. E é verdade que já está envelhecida, e apesar da pouca idade, as mãos frias,  a tensão que lhe toma evidentemente o corpo todas as vezes que o instável noivo, dono de lojas de bijuterias, insiste em fazê-la infeliz, atacando seus hábitos simples, tirando proveito de sua fraqueza, seu medo da solidão.
Por sermos humanos, cometemos erros. Contudo, embora sujeitos a equívocos de toda natureza, quando amamos alguém, trazemos nosso amor justamente à tona para colaborar com a segurança de quem amamos. De outra parte, o abusador ama a quem? Narcisista, vive para fazer doer, incapaz que é de comportar-se de forma habilidosa. Manipulador, chantagista, namorando, casando, mantém a namorada ou a esposa ou a companheira na borda de um precipício.
Luís e Rita, os dois irmãos, andando de volta para casa,  ele tenta fazê-la perceber o horror que é viver prestando contas, e ainda nem eram marido e mulher…
Nesses minutos, em meio ao silêncio da rua, Rita concorda com o irmão, mas discorre rapidamente sobre a viagem da mãe para Aparecida, depois sobre os cegos que vivem na rua debaixo da casa onde moram, sem querer penetrar na própria ferida. Põe o disfarce e como uma colegial desaparece na crença boba de que sapo vira – e sem esforço – um homem suficientemente amável e belo… Ou seja, vive com dificuldade de assumir que, quando há abuso, um amor generoso é intangível, pois nessa circunstância – abusador e vítima – estão sob o domínio de um desamor opressivo.
É cedo ainda para as estrelas. E, antes da Rita se esconder no quarto, com mesmo ímpeto que temos quando queremos convencer uma criança sobre a urgência de se nutrir e de se cuidar, Luís arrisca: “Sinceramente?” – e mexendo e remexendo uma certa mecha do cabelo – “Não dá para viver com alguém que é um perigo. Você pode passar corajosamente sem ele…”
Notas de viagem, Eugênia Pickina

Notinha
O abuso pode se dar em qualquer tipo de relacionamento, seja ele amoroso, entre amigos, familiar ou profissional. A mulher pode ser abusiva também. Mas quem é o abusador? Aquele que manipula, controla, provoca situações humilhantes para a vítima, usando-a, fazendo-a se sentir mal e infeliz sempre. O abuso se dá de diversas formas: abuso emocional, agressões verbais, perseguição, abuso econômico (proíbe a mulher de trabalhar, por exemplo), abusos físicos (violência física) e comportamentos agressivos (chutar portas, esmurrar a parede etc.); ameaça, agressão sexual/violência sexual… Quando a vítima do abuso entende que a única saída é o rompimento do relacionamento, ela, no geral, necessita de ajuda para fazê-lo e alcançar cumpri-lo. Assim, por exemplo, a terapia floral e/ou a psicoterapia são ferramentas de emancipação/autonomia importantes. Além disso, contar com o amparo familiar e de amigos. A vítima de abuso, pouco a pouco mais fortalecida, compreenderá que todo ser humano tem direito a relacionamentos saudáveis, que, de modo distinto dos abusivos, são permeados por respeito, admiração, reciprocidade, igualdade e amor.