Com amor?

Na rodoviária, na hora da despedida, sua mãe e seu pai (que mal se suportavam) fizeram uma cena exemplar: “você se cuide e aproveite”, dissera a mãe, comovente. E Marina vira o pai, Fábio, desconcertado por de repente ter se tornado um marido amável: “Você se cuide também e desta vez vá ao Mosteiro”.
Marina de pé observava com incredulidade os pais cujo amor só aparecia no tempo da ausência. Felizmente conseguiu controlar a irritação, pois detestava  constranger as pessoas.
Mãe e filha se acomodaram no ônibus que as levaria para São Paulo. A mãe segurava o celular, enviando figurinhas para grupos de WhatsApp. Marina, com seu cabelo solto, a franja caindo nos olhos claros, assistia em silêncio.
“Só vou avisar sua tia que já saímos” – explicou pela primeira vez.
O ônibus se moveu devagar. Marina olhou pela janela. O rosto do pai desapareceu – sério e sem sorrir.
Sem a presença do pai, ao lado da mãe, Marina recuperou espontaneidade, a sensação de paz que se alimenta da liberdade. No céu, uma lua minguada parecia coberta e protegida.
Marina concentrou-se, observando a mãe. Frágil e carente era aquela mulher simpática de sessenta e seis anos que nunca falava propriamente, às vezes interrompendo a sua absorvente ocupação diária com sentenças úteis e breves, vez ou outra agarrando a felicidade do instante, dizendo que precisava viver de novo e para fazer diferente. “Mas e eu? e eu?” – Marina perguntava assustada quando a mãe repetia isso, as duas sozinhas na cozinha, o sol entrando na janela sem cortina. Mesmo em sua fisgada de raiva, a mãe respondia: “você sempre será minha filha”.  Marina acreditava e isso de certo modo a consolava. Consolava contra o que a machucava centenas de vezes na atmosfera do lar desde a infância: o pai procurando humilhá-la, gritando que ela precisava deixar de ser burra e usar a inteligência, pois não era bonita o bastante. Por que precisava humilhá-la? Humilhava-a com se fosse um grande mestre na arte da vida, e já agora Marina sorria – com amor?
A mãe dormira. Os pés em cima dos sapatos, a bolsa entreaberta, e alguns objetos se fizeram visíveis – um rímel, um pacote de lenço de papel, a caneta azul presa pelo elástico ao caderninho velho, as poucas coisas que lhe eram permitido desfrutar por conta da economia doméstica. Quase irônico o pai lhe dar um vestido novo para a viagem e, ainda assim, ela continuar crendo nas bobagens que o marido lhe contava enquanto limpava os dentes com uma guardanapo na hora do jantar: “rico rouba porque lhe davam pouco dinheiro quando criança…”
Ano após ano, Marina viu a mãe matar seus sonhos nas desgraças de outros, arrumando justificativas que se afinavam com sua grande sorte por ter casa própria, marido honesto, trabalhador. O machismo, entre outros sapos, ela engolia como se estivesse erigindo uma estátua de si no meio da praça – uma vida de heroísmo por suportar as incontáveis violências energicamente. Como se ela conquistasse sabedoria nessa agridoce rotina de nutrir a confiança de um homem que, para se afirmar, precisava menosprezá-la – sem rancor?
A primeira luz da manhã iluminou a janela. Na Barra Funda, Marina pegou as malas. O ar estava seco. O dia emergia sereno e sem ameaça.
No uber, rumo à casa da tia, Marina perguntou à mãe: “vamos hoje ao Masp?”
“Sua tia detesta museu.”
“Mas e você?” – insistiu Marina.
Por um momento a mente continuou uma folha em branco. O hábito de servir esperando aprovação. Mas a vida pode, de uma hora para outra, tornar-se um jogo divertido.
“Masp e depois cinema”, definiu a mãe, a criatura de dentro espiando curiosa o mundo.
“Certo! Masp. E depois do jantar iremos ao cinema”, resolveu Marina.
À mesma hora, o pai, na padaria do centro, pedia  um pão na chapa e um pingado. Sentia-se frustrado porque estava sem a esposa. E ela agora estava se divertindo com a filha em São Paulo. Por exemplo, que fará sua mulher até entrar no ônibus no domingo à noite? Isso evidentemente o inquietava. Depois do almoço partiria de carro para São Paulo. Chegaria de surpresa. De fato, por um momento acalmou-se.
Notas de viagem, Eugênia Pickina

Notinha
Eu gostaria de lembrar-lhe que as situações difíceis e de desconforto podem ser o grande impulso que o leve à mudança que você sempre desejou. Por isso, não esmoreça, não tema… Além disso, de um modo objetivo, nós precisamos nos observar para realmente entender o que precisamos aceitar e/ou melhorar para dispor de uma base para a mudança. Do contrário, a tendência é no dia a dia alimentar autocomiseração/estagnação…