Um voo

Hoje, segunda-feira, 22 de julho de 2019, me sinto com uma mistura de tristeza e vazio. Sei que as palavras são inadequadas. A perda de um amigo faz com que tudo seja sem sentido, o fim de tudo?
Que sçay-je?
Na fase em que conheci dona Eleusa eu já não tinha mãe. Os dias da minha infância tinham acabado. Mas eu me afeiçoei a ela com o sentimento das águas infinitas; as boas conversas meditadas em cima de livros (novos e antigos): os autores italianos, os russos, os espanhóis, e pacientemente os cronistas e os poetas, o Saramago português para nos sacudir a ideia de beleza do mundo suficiente em algum lugar…
Minha grande amiga morreu. Relíquias dela podem ser encontradas em meu coração por toda parte – sua amável história de amor vivido, o crescimento dos filhos, conversações sobre lutas e esperanças, observações coerentes sobre o Brasil, a América do Sul, ou simplesmente o modo como nos sentimos confortáveis em casa…
Dona Eleusa se foi nesta época desafiadora da história do mundo. E, por isso, sem especular sobre as diferenças do passado ou do presente, não tenho dúvidas de que sem Eleusa Neves de Alencar Jabur o mundo ficou mais triste, mais árido, mais empobrecido… Perdemos uma pessoa de verdade
Saber que para tudo há o seu tempo me faz perceber, todavia, que só podia ser assim. A vida de dona Eleusa foi majestosa e em traços fortes e comoventes – ora como ser humano, ora como mulher, esposa, mãe, amiga, leitora, professora, escritora, cidadã…
Sentimos e experimentamos que somos eternos, escreveu Spinoza. Eternos, não imortais: o coração da dona Eleusa parou, pois há dores que (na alma e no corpo) não fazem mais sentido em certo trecho da existência…
Sou grata pelas alegrias da vida cotidiana que compartilhei com minha grande amiga. E, ainda assim, às próprias forças, só o tempo para me consolar. Hoje, agora não.
Notas de viagem, Eugênia Pickina