Sonho

Às vezes sonho com meu irmão e minha mãe. Sonho que eles estão vivos na casa em que vivemos quando eu tinha oito anos. Fico eufórica em descobrir que estão à mesa da cozinha, ansiosa por contar as novidades e explicar temas que ficaram pendentes. A casa é exatamente a mesma, cercada por muros altos e uma árvore de Santa Bárbara. Mas eles estão diferentes – e minha mãe usa um vestido azul de manga comprida que eu nunca vi.
Eles estão tranquilos e parecem familiarizados com a minha presença e os meus planos. Pergunto-lhes como estão indo. Como cuidam da horta e do jardim? Têm informações sobre o mundo, sobre o Brasil? Eles dizem que estão bem e me pedem para evitar os jornais e cuidar da minha vida. Todo dia. Não desanimar e, de imediato, acolher o agora e sua quota diária de aflição, sem achar que o mundo é mau.
Meu irmão me conta que ele está mais consciente de que a felicidade não depende apenas de nossa vigilância para eliminar pensamentos perturbadores, mas também da maneira como conseguimos desenvolver nossas emoções positivas. E afirma que o melhor modo de lutar contra o medo é desenvolver a confiança.
Deus nos ajude, complementa minha mãe. E eles me dizem que vão tentar fazer um filme mais à frente para narrar os detalhes sobre a importância do afeto e da amizade, pois no fim das contas a única coisa que permanece são as lembranças, sobretudo as felizes, senão tudo cai em esquecimento.
Sinto muito – eu digo.
Meu irmão me diz que não há como evitar o esquecimento. Porque nada tem o amor com a imposição e é uma falácia distinguir os indivíduos a partir de seu pertencimento familiar e clânico. A respeito de um equilíbrio de vida entre os extremos, meu irmão afirma que, em razão de uma lei de causalidade universal, nascemos para aprender a ajustar nossos desejos ao mundo, e não o contrário.
Minha mãe deu as mãos ao meu irmão. Eu não faço nenhum som. Não quero, no sonho, que o sonho acabe. Ele me dizem que têm muito o que fazer, mas voltam logo. Eu digo sim, sim, embora não me sinta completamente convencida. Voltem logo. E tudo some em silêncio.
Notas de viagem, Eugênia Pickina

Notinha
No dia a dia, procure não esquecer: “na vida há muito mais momentos comuns do que extraordinários. Esperamos na fila do mercado. Passamos horas indo para o trabalho. Regamos as plantas e alimentamos nossos animais de estimação. Felicidade é encontrar instantes de alegria nesses momentos corriqueiros.” Haemin Sunim