Do tempo

Como não tinha nada o que fazer, fui escovar o cabelo. E depois decidi caminhar na rua. Porque era o razoável àquela hora da manhã. No elevador, a senhora do 701 estava chorando, dizendo que seu marido morrera. E o filho mais velho decidira que ela se mudaria para a casa da filha mais nova. E assim: sem mais nem menos.
Um dos meus irmãos mora fora do Brasil, a outra veio almoçar comigo. A sopa de feijão-preto estava salgada. Mas bebemos kombucha de uva. E conversamos. Ela tinha me pedido para irmos juntas à livraria do shopping porque queria achar um romance interessante. Fiz o que ela pediu e passamos algumas horas juntas folheando livros. Fiquei encantada com um livro sobre plantas do cerrado.
Eu devia ter recolhido em casa a senhora do 701? Fico embravecida quando os filhos querem decidir a vida dos pais envelhecidos. Quando a mulher perde o marido (e vice-versa) não deve tomar decisões abruptas. Sem alegria, somos incapazes de fazer escolhas adequadas. Já sei o que vou fazer. Vou deixar um bilhete embaixo da porta da senhora do 701. Frente à dor do outro não basta ser bem-educado, é preciso ser solidário.
São quinze para as seis. E me senti sozinha. Surge na mente a biblioteca da faculdade. É muito esquisito. Mas sinto falta de livros. De certos autores, os preferidos. No Brasil, a educação é um luxo. Para o Ministério da Educação saber pensar não é uma necessidade. Agora vou tomar uma infusão e ouvir música. George Ezra, Vance Joy e Eric Clapton. Não quero melancolia.
Ah, já sei o que vou fazer: vou costurar. Depois eu vou falar longamente com o marido, porque estou com saudade e ele foi para Porto Alegre, depois para Navegantes, depois para Joinville. Se não presto atenção, não me cuido. É muito simples. Todos os dias, no entanto, procuro escolher conscientemente me cultivar. Tem horas que desligo, mas depois me cobro, pois sou ciente de que o está feito não pode ser desfeito.
Notas de viagem, Eugênia Pickina

Notinha
Você é propenso a cuidar de si? Há algo que o bloqueia? Pegue uma folha de papel e anote no centro seu principal problema ou desafio. Circule-o. É o ponto de partida de sua reflexão e, talvez, isso sirva de motivo para você ver as coisas por um ângulo diferente. E, às vezes, pensando no que o que o bloqueia, você simplesmente possa tentar agir de modo distinto no dia a dia, procurando ser mais focado, mais criativo…  Clarice Lispector já avisou: “O que nos impede de ter o que queremos, ser o que sonhamos e fazer o que pensamos é a ousadia que não cultivamos.”