Dona Cida


O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher
. Cora Coralina

O ofício da dona Cida é atender. Uma vocação, uma disposição que nada tem a ver com dinheiro.
Eu a observo, na Kaffee Haus, o abnegado serviço, a suavidade que alcança até mesmo as pessoas frias, fazendo-as afáveis momentaneamente; a bondade de uma mulher que serve café consciente de que não nos é dado escolher ser feliz ou infeliz, e ainda assim é preciso reconhecer o outro, tratando-o com autêntico respeito.
Dona Cida tem mais de oitenta anos. Viúva, ela trabalha na Kaffee Haus nos fins de semana, o clima todo inspirado nos hábitos de gente que modela a vida em paz.
Como homens e mulheres estão ligados uns ao destino dos outros, dona Cida explica que muitos estão esquecidos de trocar palavras gentis. Atitudes amistosas podem, sim, transformar esse egoísmo que domina os cenários da vida contemporânea, esse egoísmo fadado a causar (mais e mais) desamor e desesperos.
Entre a vida e dona Cida, sob uma luz clara, seu passado de orfandade acabou por promover uma pessoa que sempre encontra ânimo para se interessar pelos outros, guiando-se impelida a ignorar as circunstâncias difíceis para continuar servindo. Talvez para nos revelar que somos felizes quando não nos ocupamos tanto de nós mesmos, mas, ao contrário, quando oferecemos aos outros a nossa suavidade, o nosso cuidado, o nosso pouquinho de amor que dá saúde.
Alegra-me saber que na Kaffee Haus, e por causa da dona Cida e das mulheres que lá trabalham, se faz evidente que o mundo tem uma só dimensão para nós.
Juntas, eu e essas mulheres, sentimos, apesar dos sustos e das dores cotidianas, o conforto da amizade, da confiança: a longa estrada que nos cabe percorrer para alcançar, não a diplomacia, mas a gentileza, o amor ao próximo.
De repente, entre água e café, de uma maneira nítida percebo que, sob o ofício de atender da dona Cida, os pequenos sonhos, uma farta vida, pulsa um amor que tem esse brilho bonito e inocente…
E, vejam bem, é simplesmente esse amor que nos faz sentir uma felicidade discreta sempre que nos aproximamos da dona Cida: e para nos ajudar e consolar, aquietando-nos dos barulhos e dos absurdos do mundo.
Notas de viagem, Eugênia Pickina

Notinha
Escrevi este texto em 2016 e o fiz movida pelo encantamento que me invadia sempre que encontrava Dona Cida na Stalden Chocolates, uma cafeteria agradável situada em Indaiatuba-SP. Há poucos dias Lígia Cristina, neta da dona Cida, me avisou que avó havia falecido em 17 de dezembro de 2018. Acerca da partida da avó gentil e destemida, Lígia escreveu: “foi em paz aos braços do Pai.” Maria Apparecida Vieira Rodrigues é o nome dela!