Intermezzo


Quem tem bastante no seu interior, pouco precisa de fora
. Goethe

Ele foi brusco, levantou a mão e perguntou: Você não tem medo de morrer?
A pergunta me surpreendeu porque o assunto não era a morte, mas os tipos de inteligência e a aplicação no contexto da educação. Ele não estava ali, naquela sala, para saber sobre crianças, habilidades e professores. Ele estava ali desnorteado pelo medo ou provavelmente possuído por um “apego triste do eu”. Era coisa que lhe bloqueava a concentração, que lhe furtava a vontade de viver.
Lembrei-me de Bernardo Soares, os ruídos do desassossego, avisando-nos que “o próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.”
Pensei no meu pai à beira do abismo me dizendo um dia na varanda da casa dele: Teu irmão, ele não virá mais. Nesse “Teu irmão, ele não virá mais” todo o ruflar da sua dor, porque a saudade pode parir uma manifestação do insuportável na carne e na alma, moldando um novo estado de ser. E naquele dia eu não consegui me lembrar de poeta algum para bendizê-lo ou consolá-lo, ele que parecia roto, parte do velho coração quebrado sem remédio.
Mario Quintana, quem muita gente respeita, alerta que “a saudade é que faz as coisas pararem no tempo.” Não é à toa que vez ou outra observo meu pai espionando o passado, memórias que são a própria vida, revivendo tudo como um belo vitral (e uma luz parece vir de dentro dele), alegrando-se com os sonhos que o visitarão à noite, na hora do descuido.
Ora. Se eu tivesse me lembrado, àquele homem simplesmente teria respondido: tenho medo de viver mal. Porque a saudade “que dói mais fundo e irremediavelmente é a saudade que temos de nós”, nos advertiu Quintana em outro poema importante… Inteligente, portanto, é  a ânsia por bem viver. Assim, oxalá, no instante reclamado, cada um de nós, à sua maneira, poderá no mínimo morrer corajosamente.
Eugênia Pickina, notas de viagem

Notinha
Certamente viver não é fácil. Mas, com paciência, e se concedermos mais lugar à família, aos amigos, às paixões, à vida interior, nos fazendo (mais) atentos, a sabedoria nos rogará a desejar e a amar o que é (um dos segredos do bem viver)…Descobriremos, então, que felicidade/infelicidade não dependem tanto das causas exteriores, mas sim de nosso “estado de ser.” Procurar, portanto, todos os dias, dizer “sim” à vida (e que nos há dado tanto). Pois “merece de a gente aproveitar o que vem e que se pode”(Guimarães Rosa). Mais do que a felicidade, uma alegria profunda, durável, se torna possível desde que transformemos nosso olhar sobre o mundo e vivamos intensamente cada instante.