Exegese

Meus olhos estão olhando
De muito longe, de muito longe,
Das infinitas distâncias
Dos abismos interiores. Helena Kolody

Sou um pessoa aérea: penso muito sobre as coisas e o mundo. Da varanda, observo pessoas avançarem rápido na rua, tomadas por seus afazeres, outras andando com certa relutância. Presto atenção se o céu da tarde está limpo ou tingido de nuvens, porque em certos dias eu gosto de sair caminhando com paciência, reparando as casas com seus números, porque me causa emoção profunda imaginar que em uma dessas casas possa haver um lar e alguém pondo a mesa ou uma criança dormindo.
Na esquina vejo uma menina de uns sete anos vestida de trapos e certamente com anemia. Não, isto não pode continuar assim e, por um súbito sentimento, tomo consciência da incurabilidade do mundo.
No bosque, atrás da minha rua, ninguém me censura, e eu posso então chorar com as árvores e plantas, a beleza discreta do lago.
Desde criança confabulo com os livros e um riozinho que havia no fundo da fazenda dos meus avós, onde íamos nadar e brincar nas tardes de verão, as vacas andando em fila indiana, a gente, a piazada, na direção oposta, correndo para chegar em casa e ouvir da avó histórias de onças e fantasmas.
Li uma vez o livro sobre a boa fada Oriana, e tomei desde então respeito pela solidão que às vezes oculta a luz e a alegria do instante, sobretudo quando os dias são mais compridos porque sentimos o peso das obrigações ou simplesmente medo desta e da outra vida.
Pensar o mundo exige ainda muita atenção: tenho que observar com cuidado as pessoas e as coisas ao meu redor. Observar tudo imperceptivelmente com delicadeza e respeito, sem esquecer nunca que o tempo está passando…
Ah, quanta coisa verdadeiramente cotidiana! Porque a vida, penso assombrada, só está disponível no presente…
Eugênia Pickina, notas de viagem

Notinha
No texto eu me refiro ao seguinte livro: A fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto Editora).