Vida e tempo


Só se tem medo quando não se está de acordo consigo mesmo
. Hermann Hesse

Guy Debord, cineasta francês e teórico radical, escreveu sobre temas intrigantes e que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais autêntico, mais consciente, menos banal.
Guy Debord, por exemplo, recusou assumir, no seu tempo, uma vida sem sal e empobrecida, asfixiada pela tríade trabalho-consumo-férias. A mensagem é óbvia: não podemos nos apegar às aparências, embora elas insistam em nos manipular.
Cada um de nós, sem dúvida, fazendo uma breve reflexão, lembraria de diversos momentos em que a crença de que vivemos no melhor dos mundos se desfaz tão rapidamente quanto uma bolha de sabão. E por isso a vida inteira Guy Debord pregou a necessidade de valorizarmos o uso do tempo, o uso da vida, isto é, o uso qualitativo do tempo e da vida
Irritava-se com a despossessão da vida de homens e mulheres, a tendência para o mundo das ilusões, alertando sobre o risco de o potencial humano perder importância, principalmente numa época em que a mentira e a confusão entre real e fantasia ocupam o centro das vidas. “Num mundo realmente revirado, o verdadeiro é um momento do falso.”
Guy Debord achava entre outras coisas que o espetáculo era nossa ruína. Meses atrás, analisei um site sobre as notícias mais lidas. Entre as mais lidas daquela semana, liderava a notícia sobre o casamento de uma celebridade norte-americana. Isso não é o melhor a se esperar da Internet.
E lendo esses dias um artigo de um professor sensível, deparei com trechos de uma entrevista do filósofo francês Gilles Lipovetsky (quem certamente leu Guy Debord), dizendo que vivemos uma mistura de decepção, frustração e ansiedade, segundo uma lógica política (e econômica) que negligencia as potencialidades humanas e alimenta, no lugar, um consumo vertiginoso.
Em certo trecho, Lipovetsky fala que as pessoas compram muito, mas consumir não basta. “Você pode viver num palácio, ter um carrão e (…) ainda ser infeliz.” Porque a felicidade exige outras coisas, demanda, por exemplo, uma intenção baseada em nossa mais profunda inspiração, e quem entendeu isso no mínimo se compromete com propósitos emocionalmente significativos: ajudar crianças, lutar pela ecologia…
Mais do que nunca, precisamos fomentar a criação pessoal, a solidariedade inteligente, a esperança: a salvação é pelo uso qualitativo da vida e do tempo, sem a qual nos transformamos em pessoas frágeis, quebradiças, e nossos dias, fontes de medo, não de alegria.
Eugênia Pickina, notas de viagem

Notinhas
Guy Debord publicou a Sociedade do Espetáculo ainda 1967. Com 221 aforismos divididos em nove capítulos. Sarcástico, o livro recorre repetidamente ao chamado détournement (literalmente, “descarrilamento”), uma técnica paródica pela qual Debord escreve frases semelhantes às de autores como Hegel, mas com sentido inverso.  Debord apresenta, neste livro, seu conceito de espetáculo como uma “relação de pessoas mediada por imagens”. Imagens seriam representações imediatas que adquirem autonomia e fazem das pessoas meros espectadores contemplativos. Além disso, segundo Guy Debord, uma consequência séria para todos nós é a total desinformação da sociedade. Não a desinformação como negação da realidade, e sim um novo tipo de informação que contém certa trama de verdade, e que será usada de forma manipulatória (mau uso da verdade). E o mundo da desinformação é o espaço onde já não existe mais o tempo necessário (e nem a disposição) para qualquer verificação dos fatos.