Coragem, a força da alma


Como toda virtude, a coragem só existe no presente
. André Comte-Sponville

Na casa da prima Mirela a rotina era muito simples, bebiam chá nas refeições e levavam uma vida íntegra e modesta, as mulheres fazendo sua labuta no campo, nas plantações de arroz e milho. Usavam com respeito as palavras, o tempo tinha significado justo, sem ninguém aceitar onerar os outros com suas tarefas.
Mas e o tio Augusto? Em princípio ele respondia com vigor pela venda do produto e os negócios com o banco. No final dos anos 1990 teve a infeliz ideia de comprar novo maquinário para implantar na propriedade uma fábrica de queijos, mas deu com os burros n’água. Naquele outono, para piorar o cenário, adquiriu um medo tão medonho que quase se separou da esposa e da família.
Mirela, que nos relatou esse difícil evento familiar, em princípio contou que o pai não conseguia recordar que no passado tinha sido destemido, recriando, a partir do equívoco da fábrica, certa indisposição bastante resistente que o impedia de seguir em frente para dar sentido à sua vida.
O tempo o fez ansioso e instável. Embora a esposa e as filhas estivessem lá, praticamente cuidando de tudo, as pessoas não entendiam por que o loquaz Augusto passava o dia enfurnado em casa apesar de ainda ser um homem bem-apessoado, corpulento e alto.
Embora perdida a metade da propriedade, a família do tio Augusto conseguiu, no final de três anos, quitar as dívidas na praça e no banco. Mãe e filhas decidiram ampliar a casa e dobrar a porção de terras comprometidas com as hortaliças. A necessidade de ajuda fora de casa pegou o tio Augusto de surpresa. À aparição dessa possibilidade nova lhe confrontou a experiência interna de fraqueza, pois tia Júlia havia decretado que ele seguisse diariamente em direção às hortas apesar do medo.
– Vá com medo, homem. Mas vá!
E isso não era uma brincadeira, ele não o tomou assim. Ele não disse sim ou não. No dia seguinte e até hoje, pelo que sei, tio Augusto responde pelas hortas e um variado pomar na propriedade, sem afetar-se pela pressão da comunidade, ou dos parentes às vezes rabugentos, que exigem hortaliças nos seus momentos de transcendência.
Ele teve muitos altos e baixos desde que assumiu o trabalho nas hortas – disse Mirela.
Por causa do medo? – eu perguntei.
Sim – disse Mirela. – O mais óbvio é que sintamos medo. Todos nós o temos. Mas depois da experiência frustrada com a fábrica de queijo meu pai sentiu um tipo de temor que o pôs em um estado mental de fraqueza que parecia incurável. Com o imperativo de minha mãe, ele conseguiu restaurar força e vontade, pois ela não lhe deu alternativas. No fundo, quando nos reabrimos à existência, descobrimos que, como o sol que não deixa de brilhar acima das nuvens, a esperança e a coragem estão sempre no fundo de nós.
Gostei do jeito que ela disse aquilo.  E a caminho para a casa naquele dia, abrindo espaço para minhas lembranças, vi o tio Augusto, barba por fazer, apanhando o saco de batatas, insistindo para a vizinha, a velhinha Helena Lima, levar também cenouras e umas goiabas.
– Essas aqui eu quero pagar – diz ela. – Só me diga quanto é.
Meu tio diz: – Nada, não.
Para viver e durar é preciso aceitar correr o risco, aguentar os desafios cotidianos e ainda agir bem. A coragem é crucial para todos nós e para todos os seres vivos.
Eugênia Pickina, notas de viagem

Notinha
Somos sensíveis ao medo e muitas vezes nos assustamos frente aos dilemas que somos chamados para resolver, principalmente em circunstâncias difíceis ou inesperadas. Mas, há situações em que uma pessoa pode passar a experimentar um pessimismo pertinente, crença de inferioridade que agrava nervosismo ou estados ansiosos. A ansiedade é uma vivência emocional de espera penosa, que ganha mais força se somar-se a uma personalidade do tipo “evitativa”, por exemplo. Em relação aos medos, e a independer da idade, hoje em dia há muitos meios assertivos de apoio, como a terapia floral. O importante é o indivíduo que sofre com o medo, que se sente desencorajado ou enfraquecido, conseguir resgatar força e vigor para viver (mais) valente e confiante, ciente de que uma vida lúcida e com felicidade também é possível.