Resiliência


O medo sempre está disposto a ver as coisas piores do que são
. Tito Lívio

Tem gente que vive supersticioso, a rotina amassada por ameaça e medo, o hábito de remexer continuamente os sinais para o pessimismo ou o perigo.
Também conheço pessoas que não acreditam em milagres, tão céticas que são a ponto de zombar de tudo e supor que sempre que um peixe-espada vê outro peixe-espada já se dará uma batalha.
Eu não. Vivo de sincronicidades, de uma discreta confiança em milagres. Nenhum milagre obsceno, grandioso, que me faria alterar bruscamente o enredo ou perder a fala, por exemplo. Eu me refiro, de repente, a esses milagres modestos, que nos tocam logo pela manhã o rosto e os cabelos, que nos inspiram de forma inequívoca, antes de metermos os pés na rua, o rumo, a direção e, centenas de vezes, inteligência bastante para solucionar uma questão difícil ou até mesmo perdoar alguém que nos feriu de modo furtivo e repetido – quantas vezes? Setenta?
Ao falar em milagres, milagres esses que têm a natureza do mistério, e sem esquecer as incertezas do caminho, só posso acrescentar o que meu avô dizia à noite, às cegas, lá nas estradas do sul: “Valei-me São Miguel Arcanjo!”
O espírito é mais que a carne e, no entanto, é somente audaciosamente que falamos do mundo e de suas fronteiras. Pois os milagres existem à medida que, todos os dias, a vida se desdobra como uma amorosa artista para que aprendamos a desfrutá-la em sua efemeridade.
Sem dar atenção a essa sede insaciável de não sei o quê, por puro milagre podemos tomar consciência de que nos cabe habitar o presente e para viver o instante demoradamente.
Os milagres avisam que é preciso escancarar amplamente as janelas, pois de tudo irradia o reflexo de que a vida é muito curta, mesmo… Procurar viver com um coração confiante, então.
notas de viagem, Eugênia Pickina

Notinha
Procure se permitir desfrutar de coisas que lhe fazem bem: um bom livro, uma conversa comprida com um amigo querido, um passeio em um jardim agradável, uma visita a um museu ou, então, se dê simplesmente o direito de se inscrever naquele curso que você há tanto tempo vem adiando… Essas “permissões” singelas revigoram nossa alma e rotina, diminuindo ansiedades e desânimos. Além disso, para desenvolver um espírito mais confiante às vezes a pessoa necessita treinar olhar para si mesma com bondade, experimentando, por exemplo, o exercício do espelho: ponha-se na frente de um espelho e observe o seu rosto. Descreva-o da maneira mais objetiva possível. Não é fácil, não é? Estamos acostumados a julgar, não a descrever. Anote cada um dos julgamentos que tiverem passado pela sua cabeça e volte a fazer uma observação. Repita o exercício. À medida que substituímos julgamentos por descrições, alcançamos um relacionamento mais amistoso com nós mesmos e reduzimos o costume da crítica, desconfiança e comparação.