Nunca é tarde


Ninguém escolheria viver sem amigos, mesmo que possuísse os outros bens. Aristóteles

Não tenho a menor ideia quando verei o professor. Ele mudou de país. No fim de semana, aos 68 anos, ele e sua mulher partiram para o sul da França, onde reside a sogra do professor, sra. Esme, e sua velhice bem avançada.
Em algum momento depois que se aposentou, o professor se tornou apicultor e graças a esse trabalho tornou-se agricultor orgânico, produzindo brotos de vegetais e flores comestíveis. Sei disso porque ele me escreveu, no início do ano, no dia do meu aniversário, um longo e-mail relatando tudo, até mesmo os buracos no seu grande chapéu de sol. O professor nada comentou sobre mudança, mas enfatizou que nos últimos anos seu contentamento deixara de estar solidamente vinculado à vida em São Paulo.
Talvez se nesse e-mail o professor tivesse dito que pensava sair do país, eu teria respondido a ele que sinto que nossa felicidade depende muito de a gente resistir multiplicar os medos e de nossa capacidade de transformação. No fim das contas, quão pouco podemos fazer quando as pessoas nos contam que estão sufocando e ressecando.
Adultos (em nossa procura do aperfeiçoamento pelo trabalho), somos tão solicitados pelo exterior que acabamos nos aproveitando desses compromissos hiperativos para nos esconder nas numerosas tarefas a realizar e assim, ora!, estamos todos os dias ocupados demais para identificar o quanto nos sentimos infelizes e impedidos de nos exprimir e de nos inovar.
Na sexta-feira, antes de viajar, o professor me ligou para despedir-se. Aproveitou para me explicar que, imediatamente à aposentadoria, ele se deu o direito de imaginar soluções para fortalecer sua vida longe do cenário que o mantinha exausto e bloqueado. Liberar-se do trabalho repetitivo e burocrático lhe garantiu espaço para a construção de interioridade, resgatando o valor do silêncio por breves períodos do dia, de passeios inesperados à noite, e, às vezes, dando-se permissão para simplesmente levantar da cama para tomar café com leite ou reler um velho livro de poesia. Alegrar-se com uma música. Provavelmente foi isso somado ao (re)encantamento do mundo – a começar pelas abelhas – que fez o professor aceitar o convite da sogra para morar nos arredores de Avignon.
Creio que a decisão do professor é uma solução arriscada, portanto criativa. Trata-se, parece-me, de dar atenção à vida interior, enriquecendo a memória até o fim, sem esquecer da força abundante de um coração bom.
Não o veremos mais? – perguntou meu marido para mim quando lhe contei a notícia.
Ele me observou quando esquentei a sopa e a servi nos pratos brancos. E isso não foi um disfarce, mas uma comoção abafada porque o professor é uma pessoa que fará muita falta, é claro.
Um dia, eu e meu marido contaremos aos nossos netos, se os tivermos: “era uma vez um admirável professor que, por sua natureza benevolente e curiosa, decidiu experimentar a velhice em outro país. Para ser feliz sem esperar nada.”
Eugênia Pickina, notas de viagem

Notinha
Por respeito à velhice, seguem três aspectos exigentes de atenção para que essa etapa da vida seja (também) feliz e tranquila: 1) cultivar a espiritualidade, que nos conecta com a nossa essência divina, com Deus (e isso independente de religião), com a natureza e o nosso entorno; 2) fomentar a sensação de continuar sendo útil, e por isso a importância de manter relacionamentos positivos e uma rotina de trabalho que, sem onerar, estimule novos aprendizados e ideais; e 3) ouvir música. Pensando na saúde do corpo, das emoções, da mente e do espírito, dar-se permissão para ouvir música com habitualidade é fundamental na velhice. De qualquer modo, a pessoa precisa ajudar-se para fixar-se no bem, recordando que ser feliz é antes de tudo estar de acordo com nosso bom gênio e, eu diria, vibrando sem medo com nosso ser profundo.