Verbo espinhoso


Uso a palavra para compor meus silêncios
. Manoel de Barros

Antes dos vinte anos, em busca do primeiro emprego, enfiei a cara na porta da escola do professor, no segundo andar de um prédio antigo no centro da cidade. Era um segunda-feira de manhã, dia de escola às moscas, pois os alunos só apareciam à noite. Quem comandava o lugar era a irmã do professor, Margareth Ribeiro, e foi ela quem me aplicou o teste: resolver uma série de questões dissertativas de português.
Com o receio de quem teme perder a oportunidade, entrei em uma sala arejada e ocupei uma das diversas carteiras vazias, e em uma hora dei cabo da tarefa. Como a jovem senhora, que logo aprendi chamar de Margô (Margareth Ribeiro), tinha saído para levar um material à gráfica, fiquei ali, em silêncio, sob o olhar pouco amistoso de um outro professor, sócio do meu futuro chefe.
De repente levantou-se, veio até mim e, sem discrição, catou minhas folhas de respostas, que pôs a ler, de pé, cara séria, entre caretas e muxoxos. Ao terminar, me encarou por um momento que pareceu longo demais, jogou meus papeis sobre a mesa e anunciou o veredicto:
“Respostas longas demais!”
E, sem me dar tempo de pegar minha bolsa e correr dali, de volta para o sossego da minha casa, de onde, pensava, nunca deveria ter saído:
“Mais criativa do que estúpida. A maioria hoje mal escreve uma linha. Vamos tomar um café!”
Ficamos amigos instantaneamente. Amizade à sua maneira, é óbvio. Sebastián Alonzo, o Sebas, era moldado por uma afetividade espinhosa e bravia, comparável à rosa canina muito comum à região na Espanha onde ele nasceu. Consciente de que pudessem escapar doçuras reprimidas, ele, professor de física galego, franco a mais não poder, tinha horror a cenas sentimentais. Casado, duas filhas, para as quais certamente reservava afeto e gentilezas, na escola, sua fama era de professor espinhoso. “Com Sebas ninguém mostra os dentes”, brincava a Margô, que por ele arriscava um sorriso, dizendo a mim que sob aqueles espinhos havia muita bondade e sensibilidade.
Na escola, onde o teste me valeu uma vaga de estagiária, foi muito rarefeito o meu dia a dia com o Sebas, pois dávamos aulas em períodos diferentes. No entanto, nos sábados, dia de reuniões chatíssimas na escola, Sebas fazia apontamentos duros, mas relevantes e, homem humanista, se esforçava para explicar que devíamos preservar a individualidade dos alunos, pois a escola destinada ao vestibular é feita para “Pinóquios, gente que finge aprender.”
Um dia eu arranjei outro emprego e nos perdemos de vista. Anos mais tarde, ele tinha deixado a escola e mudado de ramo e, cada qual na sua peleja, raramente nos víamos. Certa manhã, a mulher o encontrou caído no roseiral, no fundo da casa deles. Era um 20 de novembro. Mesma data na qual Franco, o ditador golpista, tinha morrido, devolvendo sua inesquecível Espanha ao Rei Juan Carlos I e à democracia. Desconfio que se lhe tivesse cabido programar o infarto, Sebastián Alonzo, professor de física coerente que era, teria considerado com determinação e teimosia a mesma data!
Eugênia Pickina, notas de viagem

Notinhas
Há pessoas que têm uma forma de expressão ríspida, espinhosa. Confundem, por exemplo, franqueza com mordacidade, sinceridade com rudeza. Calendula (Calendula officinalis), essência floral do sistema californiano, é indicada para as pessoas que têm uma forma de falar dura. Calendula aporta calidez, cordialidade e doçura à comunicação, à medida que eleva a sensibilidade da pessoa para compreender o significado real das palavras (aprender escutar e falar). Ela é sugerida para todos aqueles que desejam empregar a palavra com empatia e compaixão. É muito adequada para pessoas propensas a não escutar e, com isso, criar mal-entendidos. Terapeutas, educadores, advogados, oradores e demais pessoas que empregam a palavra em casa, no trabalho (e para que se deem conta de bem usar as palavras para apoiar e não causar dano ou ferir), podem se valer dos benefícios de Calendula para crescer em sinceridade, tolerância e receptividade, segundo uma comunicação transparente, honesta, mas ao mesmo tempo receptiva e generosa.