Um pé depois do outro

O diabo é um egoísta. J. Goethe

As biografias das pessoas inspiradoras estão cheias de acontecimentos ricos, que ajudam a alterar positivamente o quadro das angústias experimentadas neste mundo, pois tantos são os caminhos incertos. A vida delas lhes acontece de dentro para fora.
Muito mais autêntica, mais natural, foi a vida do meu avô, o pai da minha mãe, cujos exemplos foram tijolos importantes de minha própria construção interior, da minha estabilidade, em suma.
Ao chegar à sua fazendinha, no interior do Paraná, passando pela velha porteira, o bosque de árvores, eu já sentia um contentamento, uma acesa curiosidade para aprender não sei quê…
Em todo caso, na cozinha simples, sempre havia um desconhecido que ali chegara para pedir asilo ou somente comida, essa gente sem rumo que depende, em suas existências no ar, espontaneamente da virtude alheia.
Lembro que me sentava à mesa servida para o café da manhã e, incontáveis vezes, estava a comer conosco ora um homem solitário, ora um casal, ora uma família com crianças (uma de colo), pessoas advindas da estrada, peregrinos dos destinos precários, a partilhar com meus avós a refeição da hora, tudo sem firulas, porque o orgulho é sinal de desvirtuamento da própria essência do Bem…
Com suas atitudes, sugerindo a mim, aos meus irmãos, que é preciso estender a mão alegremente, meu avô evocava, sem dizer nada, a importância de ser altruísta, ser benevolente pela urgência do instante.
Tive que crescer para descobrir como fui marcada pelos exemplos desse homem nascido das gentes do sul do Brasil. Porque ele me ensinou que há também uma vida que se abre para os outros. 
Quando meu pai perguntou ao meu avô se não lhe causava incômodo servir a comida e depois ver aquela pessoa sumir na estrada, murmurando às vezes uma palavra torta, ele sempre dizia: “infelicidade é não ter uma casa para voltar. De todos os modos, dando-lhe o alimento, eu o ajudo a continuar a viagem. E, quem sabe?,  esse desafortunado possa encontrar um canto bonito no caminho para enraizar, antes que sua história tenha desaparecido…”
Com meu avô, João Matheus Tavares, aprendi que não é preciso aguardar circunstâncias trágicas para ser bom. Abrir-se ao altruísmo que se realiza gratuito para aliviar situações cotidianas, pondo simplesmente o amor no centro da nossa vida.
(Eugênia Pickina, Caderno Aéreo)

Photo by Micah Hallahan