A cor da memória

Abro a memória: silêncio…
Detestava me afastar de casa, mas a professora Cecília, com brilho nos olhos, às vezes reduzia minha ânsia de me pôr em fuga, esconder-me no quintal da minha árvore, abraçar o gato preto, comer a maçã em pedacinhos sob a mesa na cozinha, enquanto a Rosa, entre risos e medidas, mexia a panela cantando um hino por amor à Santíssima.
Suspiro. De quando em quando desconfio de que tudo que vivi na infância, no tempo da casa centro do mundo, é uma história de fantasminha, é matéria cor de cinza e agora simplesmente pouco a pouco se dissipa.
O relógio da minha mãe ainda funciona, embora ela tenha partido há mais de quatro anos de nossas vidas.
Desperta-me na madrugada a voz da meninazinha que sonhava com histórias e queria, naqueles dias, ser amiga do cavaleiro Dom Quixote, todo esse encantamento de uma idade perdida.
Hoje? Depois que crescemos, há tantos riscos, e o mais sórdido: perecer devagarinho, permitindo que aspirações profundas sejam espremidas entre entulhos e circunstâncias, o sonho enfiado em uma garrafa de náufrago jogada ao mar…
(Eugênia Pickina, Caderno Aéreo)

(Photo by Alexander Shustov)