Achados…


Também temos saudade do que não existiu, e dói bastante
. Carlos Drummond de Andrade

Arrumei o armário, organizei os livros,  e escolhi um para reler à noite.
Está chovendo e venta muito. Fico quieta e do nada me vem à mente pessoas terra-a-terra, enquanto outras seguem aventurando-se por lugares que ninguém costuma passar, mais ou menos arriscando a ver coisas que não costumam ser vistas, como praças esquecidas ou vazias, o sóbrio exílio de gente aérea…
Viver implica tanta coisa. Exige amar, lutar, ignorar, quantas vezes?, o mal-estar, a banalidade cotidiana, e para continuar vivendo, amando, lutando, ignorando…
Um dia, Alice Baldo, minha vizinha (e uma famosa professora de cerâmica), contou-me que sua mãe vez ou outra lhe dizia: “Mas Alicinha, por que tu não inventas coisas mais intensas?” E ela, movida por paciência, soltava a mesma resposta automática : “Mas eu não sou intensa, mãe.” Depois dessa história, e sem dizer muito, só ouso arriscar que ninguém é igual a ninguém.
No entanto, não me sai da memória um professor do ensino médio, dedicado à língua portuguesa, que ao dar-nos o tema para a redação, antecipava alertando-nos: “Não adianta escrever muito, juntando bobagens, senhores, porque eu só leio se fizer algum sentido; do contrário, eu já rasgo.” E assim nos ensinou uma grande lição, obrigando-nos a escrever com atenção e coração, porque recriando a nós mesmos. A ele, Sr. Carlos Fortes, portanto, dedico aquele trecho bonito do poeta de Itabira: “todo ser humano é um estranho ímpar”.
Cariños, Eugênia Pickina

Photo by 童 彤