Viver profundamente

Nada é bom ou mau em si, tudo depende daquilo que pensamos. Hamlet, Ato II

Óbvio que a vida pressupõe deveres, essas tarefas que fazemos diariamente, enquanto o mundo avança de diferentes modos: o ruído do vizinho a plantar gentilmente um arbusto à beira da cerca, a mulher chamando-o da cozinha, provavelmente para servir a comida, a tarde que começa devagarinho.
Podemos existir sozinhos?
Não podemos existir sozinhos. Precisamos viver entre todos. Porque nos relacionamentos enxergamos a natureza da interrelação entre nós e o outro, enxergamos que o sofrimento do outro também é nosso, e que a nossa felicidade também é a felicidade do outro. Conseguimos, com isso, ir além de nossa individualidade, escapando à ideia empobrecida do “eu”, reconhecendo os elementos positivos que também existem no interior dos demais – bondade, alegria, compaixão, gentileza.
Certas vezes pensamos que apenas submeter-se ao relógio e trabalhar criam sentido, ajudam a minorar a ansiedade. Mas só conseguimos transformar realmente a monotonia e a solidão quando nossas aspirações e ações diárias são compartilhadas com outras pessoas, crescendo com isso em paz, amor e compreensão.
Lembro do que ouvi um dia de um professor universitário, meses antes de ele aposentar-se: “não fui um homem do mundo lá fora, porque vivi entre as salas de aula, os corredores e minha própria solidão, pois conviver me irritava a maior parte do tempo! Certamente no fundo um medo de desagradar, expor em demasia minha textura taciturna, sendo eu obrigado a modificar-me. Mas isso exigiria de mim muita presença, muita atenção! Decidi então viver isolado, e agora já passaram sessenta anos.”
(Caderno Aéreo, Eugênia Pickina)

Photo by Alisa Anton