Eu te escuto?


A escuta é uma abordagem de humildade, em que colocamos o outro antes de nós mesmos. Os grandes narcisistas não escutam bem, e nos momentos em que estamos ansiosos, eufóricos ou tomados por muitas preocupações autocentradas, não somos capazes de escutar com qualidade. Embora, às vezes, possamos fingir escutar.
Christophe André

Até eu completar nove anos frequentamos muito a casa da irmã mais velha da minha mãe.  Naquela casa simples, à mesa redonda na cozinha, na hora do almoço, eu me sentia infeliz por notar que meu tio não ouvia (de verdade) uma única palavra que minha tia dizia a ele durante a refeição, concordando mecanicamente com um gesto de cabeça ou um monossílabo quase sempre inaudível. Oh! como poderia fazê-lo, a atitude de uma falsa escuta?
Depois do almoço, minha tia trazia o café ruidosamente, atravessando a sala que mais parecia um país do tapete, meu pai em pé apoiado na porta e meu tio já sentado como um belo rei no único banco da varandinha de pedra, os vasos de flores que se abriam simplesmente nas épocas mais quentes.
Por força do hábito, eu costumava ficar sentada no degrau da escada, imaginando o que haveria nas outras casas vizinhas, tudo o que existia atrás do portãozinho de madeira que nos conduzia a uma grande árvore na calçada, a rua silenciosa e discreta.
Então minha tia voltava trazendo biscoitos caseiros que derretiam na boca em um pratinho decorado com paisagens azuis, outras vezes, pedacinhos de bolo, e começava sem cautela a contar uma história interessante ou fazia menção a um mero fato cotidiano.
De frente para o meu tio, categoricamente eu o espiava, o primeiro olhar fixo no seu próprio rosto largo e ossudo, eu procurando inutilmente entender por que ele não prestava atenção, agindo na realidade como alguém entorpecido na tarde ensolarada… Como podia manter-se tão indisponível para a esposa?
A escuta implica desfazer-se de parte de si para prestar atenção no outro, envolvendo, por isso, necessariamente uma qualidade de presença. Para manter meus ouvidos atentos preciso inclinar-me a estar permeável ao outro, aberto às suas falas.
Meu temperamento introspectivo sempre me facilitou mais escutar do que falar. Mesmo assim, vi, com tempo e desafios, como ainda necessito melhorar minha habilidade de escuta. Pois cometo erros, sobretudo diante de crianças e amigos, quando, no lugar de apenas ouvi-los o suficiente, me pego querendo consolá-los ou consertá-los, um sinal evidente de que muito há para crescer e melhorar no meu papel de ouvinte.
Quem vive vai deixando de espantar-se? Porque as palavras alheias podem a qualquer instante ensinar, emocionar e surpreender, arrancando-nos de nosso próprio habitual marasmo…
Volto ao abrigo da casa da minha tia, sinto o cheiro do café com leite, aquela receita de torta que ela explica à minha mãe enquanto o dia finda. E é simplesmente confortável e seguro olhar para essas mulheres e perceber em ambas a mesma expressão receptiva de cuidado e atenção.
(Caderno Aéreo, Eugênia Pickina)

Notinha
Tentar lembrar sempre que “falar é uma necessidade. Escutar é uma arte.” (J. Goethe). Procurar, com paciência, desprender-se das próprias certezas e cansaços para fazer-se receptivo e aberto à pessoa que está à sua frente. E insistir, insistir, insistir em aprender a escutar…
Photo by Greg Willson